PROMETER MUNDOS E FUNDOS
Zero Hora, de 14 de setembro de 2010
Em tempos de propaganda eleitoral, é comum ouvirem-se alusões à expressão: mundos e fundos. Num contexto cultural em que muitos eleitores, lamentavelmente, ainda creem que as mudanças sociais e econômicas resultam da magia de candidatos, as promessas ecoam fáceis em discursos demagógicos. Com o intuito de contribuir para o esclarecimento, detive-me em pesquisa sobre a referida expressão, tentando resgatar a sua origem e evolução semântica.
Significa grandes quantidades de algo; muitos recursos; promessas extraordinariamente exageradas; oferecimentos enormes. Emprega-se, geralmente, na frase prometer mundos e fundos, sinônimo de promessa exagerada e que, dificilmente, será honrada. Muito atribuída a políticos demagógicos, em período eleitoral, com o objetivo de conquistar a simpatia e o voto. Outros a empregam para conquistar um grande amor, em momento de arrebatadora paixão. Há, ainda, quem se socorra dela em situação constrangedora, para livrar-se de perigo ou ameaça. Independente das circunstâncias da referida linguagem, há duas interpretações para a sua origem:
a) em versão de linguajar mais antigo, mundos teria a função de adjetivo como antônimo do adjetivo imundos. Mundos, como adjetivo, equivaleria àquilo que é puro, legítimo, original, genuíno, do mais fino valor, referindo-se principalmente a bens minerais, joias. Fundos também exerceria a função de adjetivo, com o significado de grande quantidade, de enorme tamanho, em profusão. Significaria, então, prometer bens da maior qualidade e pureza e em enorme quantidade;
b) em versão mais atualizada, mundos e fundos exerceriam a função de substantivo. Mundos como sinônimo de terra, a totalidade da terra; fundos como representação de todas as partes com água: mares, lagos, rios. Fundos também assumiu o sentido de moeda, recursos financeiros, títulos, ações.
Há, ainda, referências literárias antigas de mesmo teor, entre elas: mares e montes; mares e areias. Em todas elas, no entanto, há em comum o exagero descabido e a percepção de que as promessas não serão cumpridas, pelo menos na totalidade e integralidade, dadas as dimensões das mesmas, do tamanho do mundo.
Partindo do pressuposto de que a linguagem traduz o pensamento da cada época, se ainda proliferam as promessas de mundos e fundos, é sinal evidente de que, atualmente, existem pessoas que são receptivas a esse tipo de discurso. A democracia é uma longa caminhada e um aprendizado diário. Em cada episódio eleitoral, a sociedade tem a oportunidade rara de exercê-la com liberdade e autodeterminação. Para tanto, cada cidadão deve dispor de conhecimento, educação e senso crítico. Ele é o verdadeiro protagonista em busca de uma sociedade mais justa. De minha parte, fico com a utopia, mesmo com pequenos e árduos avanços, como forma de enterrar e deixar para o passado os mundos e fundos que nunca se tornaram realidade.
Professor e escritor Ari Riboldi
