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A prata da casa é a salvação da lavoura

A prata da casa é a salvação da lavoura

Em tempo de vacas magras, com dívidas acumuladas e escassos recursos para investir no futebol, faz bem o Grêmio em dar oportunidade ao técnico Roger Machado, ex-jogador e ex-auxiliar do clube.

Como ninguém, ele conhece a tribo, dentro e fora das quatro linhas. Além disso, já demonstrou em sua carreira que tem habilidade, formação, jeito, liderança, carisma para a função. Pesa, ainda, a seu favor a identificação histórica com o Grêmio, como atleta e funcionário exemplar, agregador.

É uma aposta que vale a pena, levando-se em conta o desempenho que já demonstrou como treinador. Parece que os clubes estão se livrando dos medalhões, com salários milionários, e que, para trabalhar, impõem um séquito de profissionais — fisicultores, auxiliares — que saqueiam os cofres mensalmente, com resultados pequenos diante da grandeza dos valores requeridos.

Espera-se que o novo técnico também abra espaço para atletas que se formaram no Grêmio, que têm identificação com o clube. Diante da falta de dinheiro e de atletas disponíveis no mercado, a hora é de valorizar os guris das categorias de base.

O rival Internacional é, no momento, uma prova de que a prata da casa pode dar certo, quando prestigiada e preparada com o devido tempo, sem precipitação. Na sua formação titular, o Inter tem seis jogadores da casa, com garra, vitalidade, qualidade e excelente desempenho.

Em tempos de minguados recursos financeiros, a aposta mais recomendada é na prata da casa. Tudo a ver com a origem histórica da referida expressão. Recursos próprios de que se dispõe, que não é preciso pedir emprestado ou alugar; empregados da própria empresa que deram conta de uma atividade; empregado antigo, há muitos anos na mesma firma; na linguagem do futebol, atleta que fez toda a sua carreira no mesmo clube, desde as categorias de base.

A expressão teria nascido antes que o ouro marcasse referência de riqueza e poder. Antes da fase do ouro, as joias, louças e outros objetos das casas dos nobres e das igrejas eram confeccionados em prata. Ela representava a riqueza. A fortuna era transformada em objetos de prata como reserva de bens. Em caso de necessidade de saldar uma dívida, se não houvesse moeda, recorria-se a um objeto de prata da casa, como último recurso.

Em tempos de guerra, reis e nobres, vencidos nas batalhas e no orgulho, lançavam mãos da prata da casa — louças, joias, objetos de adorno pessoal ou dos móveis — para cumprirem os acordos de paz a que se submetiam.

O momento é de carestia de dinheiro. Da mesma forma como antigos reis agiam, vendendo objetos de prata, nossos clubes se valem da venda de jogadores formados em casa para fechar o balanço de cada ano e fazer frente às despesas. A prata da casa tem sido a salvação da lavoura.

Toda a torcida para o sucesso do novo treinador do Grêmio e para os jovens jogadores do Inter. A prata da casa pode ser solução também para ganhar títulos e não apenas para pagar dívidas.

Artigo publicado no jornal Zero Hora, esportes, coluna “De fora da área”, de 27/05/2015

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