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A falta de decoro e o eleitor (Zero Hora)

A falta de decoro e o eleitor (Zero Hora)

A falta de decoro e o eleitor
Zero Hora de 13 de agosto de 2012

Do latim “decorum”, belo, elegante, conveniente, formoso, bonito. Pela etimologia, o decoro vem a ser o recato, a postura estética, o modo de comportar-se adequado ao exercício de determinado cargo público. Assim, seria falta grave de decoro, passível de cassação de mandato, o fato de um parlamentar apresentar-se a uma sessão de gravata e terno, mas calçando um par de sandálias ou tênis. É evidente que o episódio, se houve, faz parte do folclore político e nunca foi objeto de denúncia junto à comissão de ética da Casa Legislativa. A defesa poderia alegar a existência de uma unha encravada ou um calo infeccionado.

O povo, com certeza, não vai se importar com o modo de vestir ou com a cor do cabelo de seu representante. Alguns deles até apelam para roupas extravagantes ou trajes vinculados às tradições regionais como forma de se promoverem e ter alguns instantes de luz, principalmente os integrantes do chamado baixo clero. O que realmente incomoda o eleitor, porém, é a falta de decoro na acepção atual da palavra: honradez, decência, brio, correção moral, compostura, conveniência.

A perda do decoro está caracterizada no desvio de recursos públicos, tráfico de influência e de drogas, remessa ilegal de moeda ao exterior, lavagem de dinheiro, contrabando de armas, obras superfaturadas, homicídios, crime organizado, dentre tantos outros delitos já constatados. O povo fica estático, atônito e incrédulo. Tudo isso aconteceu em passado recente neste país. É só querer ver e ouvir. Até aqueles que diziam “o meu candidato rouba, mas faz” estão revendo o seu modo de pensar. A ingenuidade e o paternalismo andam sempre junto com o voto de cabresto e a ignorância.

Quero crer que os tempos estão mudando. O eleitor está ficando mais maduro e crítico. Vem aprendendo a dura lição. É preciso ser otimista e apostar numa nova relação entre o representante político e seus representados. O que se espera é uma nova forma de fazer política, com ética, dignidade e respeito ao cidadão. O eleitor consciente, zeloso de seus direitos e deveres, é o que pode fazer a verdadeira cassação, sem recurso ao Supremo Tribunal Federal. É a cassação que ele pratica com seu voto na próxima e nas futuras eleições. Eleitor tem a mesma raiz de elegante, de eleger, de diligente e de inteligente. Na urna, é o que pratica o ato de escolher para eleger, o que seleciona os melhores para representá-lo e exercer o mandato por sua delegação.

Ari Riboldi, professor e escritor.

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